Para adaptar conteúdos para IA há três mudanças concretas a fazer: avaliar antes de produzir, estruturar cada peça com a resposta nos primeiros parágrafos e cimentar a presença da marca fora do seu website, nas fontes que cada plataforma privilegia.
A maioria dos produtores de conteúdo está a fazer a pergunta errada. A questão é, cada vez mais, “como é que a IA me encontra e decide que o meu conteúdo merece uma citação?”.
No artigo anterior desta série, sobre como garantir a visibilidade das marcas na era da IA, vimos que a pesquisa está a mudar de forma estrutural: o tráfego orgânico está em queda, os assistentes de IA estão a tornar-se o novo filtro entre as marcas e o seu público, e a visibilidade já não se constrói apenas no Google. Percebemos também que a otimização para esta nova realidade implica trabalhar três pilares em conjunto: SEO, GEO e AEO.
Mas o que muda, na prática, ao questionar como adaptar conteúdos para IA? Que estratégias seguir neste quadro?
Como adaptar conteúdos para IA: avaliar antes de produzir o conteúdo
Cada vez mais, as tradicionais questões de SEO (“qual é a keyword de maior volume?” ou “quantas palavras deve ter o artigo?”) perdem centralidade neste enquadramento. Antes de escrever um conteúdo, importa, então, formular três perguntas:
Pergunta 1: Quem já está a responder a esta pesquisa?
O primeiro passo passa, portanto, por pesquisar o tema (preferencialmente em linguagem natural, como qualquer utilizador faria) no ChatGPT, no Gemini, no Claude ou no Perplexity, com pesquisa web ativa. Quem aparece nas respostas? Com que tipo de conteúdo?
Alguns assistentes de IA criaram funcionalidades próprias para a pesquisa na web. O ChatGPT chama-lhe “Procurar na Web” e o Claude designa-a como “Busca na web”.


Um estudo da AirOps, que analisou mais de 16.000 pesquisas, indica que as páginas posicionadas nos primeiros lugares do Google foram citadas pelo ChatGPT em 58% dos casos, enquanto as páginas na posição 10 registaram apenas 14%. Este desfasamento sugere uma relação consistente entre o ranking orgânico e a probabilidade de citação por assistentes de IA.
Na prática, a implicação é direta. Quando os concorrentes que ocupam o top 3 do Google para uma determinada pesquisa concentram mais de 50% das citações, produzir conteúdo sobre o mesmo tema sem perspetiva de alcançar esse grupo tende a oferecer um retorno reduzido.
1.ª conclusão:
A avaliação de conteúdo começa sempre pelo SEO: sem visibilidade orgânica de base, não há GEO consistente. As páginas mais privilegiadas pelo Google são mais citadas pelo ChatGPT.
Pergunta 2: O que posso acrescentar que não está lá?
Depois de perceber quem já responde e como, é preciso identificar o que falta. Por exemplo, um dado específico, a perspetiva do mercado português, o case study de um cliente, uma comparação que ninguém fez ainda.
O importante sobre como adaptar conteúdos para IA é encontrar um ângulo diferenciador e relevante que justifique a existência do conteúdo. Ainda assim, é necessário ter em conta que estes assistentes não se ficam pelos websites próprios.
Segundo a McKinsey, o website da própria marca representa apenas 5 a 10% das fontes que a IA referencia. A grande maioria das respostas é construída a partir de publishers, fóruns, sites de reviews e conteúdo gerado por utilizadores.
2.ª conclusão:
Escrever bem e de forma otimizada no website é importante, mas não é suficiente. Para saber como adaptar conteúdos para IA é preciso estar presente e ser referenciado nas diversas fontes que esta tecnologia já consulta.
Pergunta 3: Para que plataforma e para que perfil de leitor?
Esta pergunta é cada vez mais relevante, uma vez que cada assistente de IA tem preferências editoriais diferentes. Ou seja, um conteúdo relevante para o Google AI Overviews pode ser irrelevante para o ChatGPT.
Os dados do estudo da Rankscale, citado pelo Search Engine Land, baseiam-se em quase 8.000 citações únicas e ajudam a perceber as diferenças:
| Plataforma | O que privilegia | O que evita | Implicação para a estratégia |
| ChatGPT | Wikipedia, media de relevo (como Reuters e Financial Times), fontes enciclopédicas (Wikipedia = 27% das citações) | Conteúdo gerado por utilizadores (como fóruns e redes sociais); blogs de marca (<3%) | Construir presença em meios externos de autoridade; ser citado por terceiros |
| Google AI Overviews | Artigos de blog (46%), Reddit, LinkedIn, conteúdo de comunidade | Wikipedia (<1%) | Blog estruturado; presença em fóruns relevantes e LinkedIn; FAQ |
| Perplexity | Conteúdo editorial/blog (~38%) e notícias (~23%); Sites especializados (NerdWallet ou Investopedia) | Fontes genéricas | Garantir presença em websites especializados; fóruns relevantes; conteúdo factual e útil |
| Gemini | Mix de blogs (~39%), YouTube, notícias (~26%) e algum conteúdo de comunidade | — | Profundidade do conteúdo; diversificação de formatos; relevância do vídeo |
De notar que a dimensão B2B ou B2C acrescenta outra camada de especificidade à questão “como adaptar conteúdos para IA”. Para pesquisas de consumo (por exemplo, “melhor smartphone” ou “melhores hotéis no Alentejo”), os sites oficiais das marcas são raramente citados, com menos de 4% das citações. Neste caso, o que domina são sites de reviews, blogs de tecnologia e lifestyle, mas também comunidades como o Reddit.
Já para pesquisas profissionais (“melhor software de CRM” ou “agência de content marketing”, por exemplo) o cenário muda. Isto é, blogs de empresa, diretórios do setor, artigos no LinkedIn e relatórios de analistas representam uma fatia significativa das citações neste âmbito.
3.ª conclusão:
Os assistentes de IA funcionam com lógicas diferentes. Com efeito, é preciso ajustar a estratégia consoante os objetivos e a natureza do negócio (B2B ou B2C).
O que muda no briefing, na estrutura e no tom
O passo seguinte passa, então, por saber como adaptar conteúdos para IA na prática:
O briefing
O briefing de um conteúdo destinado a ser citado pela IA tem elementos que o briefing tradicional de SEO não incluía, a saber:
- A pergunta em linguagem natural a que o conteúdo responde. Não se trata de uma keyword, mas a frase completa, tal como um utilizador a colocaria no ChatGPT ou no Google. “Software de gestão para PME” é uma keyword. “Qual o melhor software de gestão para uma PME com menos de 10 pessoas?” é a pergunta que o briefing deve conter;
- O ângulo diferenciador. Pode ser um dado exclusivo, um case study adaptado a um setor ou região, ou uma perspetiva que não foi abordada noutras fontes;
- A posição da resposta principal, que deve estar nos primeiros dois parágrafos. De acordo com análises independentes do Growth Memo e da Seer Interactive, 44% de todas as citações de LLMs derivam dos primeiros 30% do texto. Daí a importância de colocar a resposta no início e deixar esse requisito bem explícito no briefing.
A estrutura
Saber como adaptar conteúdos para IA passa, igualmente, pela definição da estrutura no momento do planeamento. Neste caso, seguimos quatro regras:
Regra 1:
O tema deve ficar claro nas primeiras 100 palavras. O assunto principal do artigo deve ser inequívoco desde o início, usando a terminologia padronizada do setor e referenciando conceitos ou entidades conhecidas na área.
O que é um snippet inicial?
É a resposta imediata à questão colocada pelo título do artigo, publicada no início do artigo, mesmo antes do índice, caso exista.
Regra 2:
Os headings ou subtítulos formulados como perguntas reais. No mesmo estudo da AirOps, a relevância dos headings foi o fator on-page mais determinante para as citações do ChatGPT. Significa isto, pois, que as páginas cujos headings correspondiam diretamente à pergunta do utilizador foram citadas 41% das vezes, contra cerca de 30% para correspondências mais fracas.
Por exemplo, em vez de colocar “Vantagens do email marketing” deve colocar-se: “O email marketing ainda funciona em 2025?“.
Regra 3:
O foco supera a abrangência, sendo esta a regra que, provavelmente, mais contraria o SEO tradicional. O mesmo estudo revelou que conteúdos entre 500 e 2.000 palavras foram os mais citadas pelo ChatGPT. Páginas com mais de 5.000 palavras foram citadas menos frequentemente do que páginas abaixo de 500.
Regra 4:
Incluir parágrafos autónomos e citáveis, que funcionam como pequenos destaques ao longo dos artigos e que podem designar-se de featured snippets. A sua estrutura deve fomentar a citação direta para responder a perguntas específicas dos utilizadores.
O tom
Saber como adaptar conteúdos para IA passa, acima de tudo, por aprender a escrever melhor para pessoas. Deve, por isso, adotar-se uma linguagem conversacional e natural, perguntas formuladas como o público real as colocaria, respostas diretas sem rodeios, exemplos concretos em vez de generalidades.
No fundo, o conteúdo deve ser útil para a pessoa que faz a pergunta.
Como adaptar conteúdos para IA utilizando as normas de GEO? O caso da Maytag
A Maytag é uma marca americana de eletrodomésticos. Sem uma equipa de conteúdos extraordinariamente grande e sem fazer uma transformação digital radical, seguiu uma estratégia simples.
A equipa identificou as perguntas que os seus clientes realmente fazem quando estão a considerar comprar um eletrodoméstico. Alguns exemplos: “secador a gás ou elétrico, qual a diferença?“, “qual o secador energeticamente mais eficiente?“, “que secador escolher para um apartamento pequeno?“.
A partir dessas perguntas, criaram artigos que respondiam diretamente a estas dúvidas. Por conseguinte, recorreram à terminologia que os utilizadores usam e complementaram com vídeos no YouTube sobre os mesmos temas, criando autoridade no assunto em múltiplos formatos e plataformas.
Desta forma, passaram a ser amplamente citados nos AI Overviews do Google e nas respostas do ChatGPT, em competição direta com grandes retalhistas e publishers com muito mais recursos editoriais.
Como adaptar conteúdos para IA recorrendo ao Answer Engine Optimization (AEO)?
Neste âmbito, importa, desde logo, equacionar uma regra fundamental: a resposta vem primeiro, a explicação vem depois. A IA extrai quase sempre a primeira frase completa após o heading. Se for uma definição direta ou uma resposta concisa, a probabilidade de citação sobe significativamente.
O AEO é, portanto, a disciplina que otimiza esta mecânica para conquistar a posição zero nos resultados do Google.
Um exemplo concreto para uma PME portuguesa de serviços:
Sem AEO: “Neste artigo explicamos tudo o que precisa de saber sobre consultoria de marketing digital para pequenas empresas, desde a definição até às principais ferramentas disponíveis no mercado.”
Com AEO: “O que é consultoria de marketing digital para PMEs? É um serviço que ajuda pequenas e médias empresas a definir e executar a sua estratégia de presença online — do SEO às redes sociais — com acompanhamento especializado adaptado à sua dimensão e orçamento.”

Em matéria de AEO, há dois elementos técnicos que aumentam a probabilidade de citação:
- A criação de uma secção de FAQ no final de cada artigo, com três a cinco perguntas reais e respetivas respostas diretas (duas a três frases cada);
- O uso de schema markup de tipo FAQPage, que traduz essa estrutura numa linguagem que os motores de pesquisa e os assistentes de IA leem sem ambiguidade. O estudo da AirOps revela que as páginas com este tipo de marcação estruturada tiveram uma taxa de citação de 38,5%, contra 32% para páginas sem esta marcação.
Vale a pena manter o blog?
Depois de perceber como adaptar conteúdos para IA, esta é, certamente, a pergunta que fica e que muitas equipas de marketing têm adiado.
A resposta não é fechada. Depende de uma variável central: o blog vale a pena quando propõe aquilo que a IA não encontra noutro sítio. Ou seja, conteúdos exclusivos e de qualidade, com citações de especialistas ou casos reais.
O investimento nestas plataformas deixa de valer a pena quando apenas se publica conteúdo que a IA já serve melhor. Além disso, um blog sem atualização regular acaba por se deteriorar. Pode mesmo tornar-se num ativo que trabalha contra a marca.
Saber como adaptar conteúdos para IA começa precisamente aqui: na decisão editorial. Só depois se deve começar a escrever.
Se ainda tem dúvidas sobre esta temática, a medição de resultados é a chave para perceber o impacto da estratégia. E é isso que vamos destacar no próximo artigo desta série. Como medir a visibilidade na IA? Que ferramentas usar, que dados procurar e como saber se a estratégia está a funcionar?
Até lá, leia o primeiro artigo da série.
FAQ (perguntas frequentes)
O ponto de partida mais acessível é a auditoria manual: escolha três perguntas que os seus clientes fazem com frequência e pesquise-as no ChatGPT, no Gemini e no Perplexity com pesquisa web ativa. Registe quem aparece nas respostas e de que tipo de conteúdo se trata.
Sim, e de forma direta. O ranking orgânico é o principal fator que determina a probabilidade de citação por IA, o que significa que todo o trabalho de SEO já realizado é a base sobre a qual o GEO assenta.
Não é obrigatório, mas tem um impacto mensurável. O schema markup é um conjunto de etiquetas técnicas que se adicionam ao código de uma página para descrever o seu conteúdo de forma estruturada e inequívoca para os motores de pesquisa e para os assistentes de IA. Assim, o schema diz-lhes: “esta secção é uma pergunta”, “esta é a resposta”, “este é o autor”.